O que todo blogueiro pode aprender com René Descartes…

Deixar claro para o leitor o que esperar de cada texto é uma boa prática para evitar surpreendê-lo negativamente.

E, talvez como conseqüência da cultura norte-americana de recorrer ao judiciário logo no primeiro sinal de que algo deu errado e há esperança de colocar a culpa em outra pessoa, a prática de incluir “disclaimers” nos textos é cada vez mais comum. Disclaimers são aqueles trechos em que o autor ou a publicação limitam sua responsabilidade sobre as conseqüencias da leitura do texto. “Sua quilometragem pode variar”, “Não faça isso em casa”, “Não oferecemos qualquer garantia”, ou outras formas polidas de dizer que o leitor está por sua própria conta e risco, algo que deveria ser óbvio mas cada vez mais precisa ser tornado explícito.

Curiosamente, ganhei de presente há algumas semanas um pequeno exemplar do “Discurso do Método”, de René Descartes, e percebi que logo nas primeiras páginas ele inclui um pequeno trecho que serve como aviso do que o leitor deve esperar em termos de autoridade sobre o conteúdo, e também vale como um precursor dos atuais disclaimers.

Mais do que uma curiosidade histórica, o disclaimer de René Descartes expressa um ideal e um desejo que podem ser compartilhados pela maioria dos autores e blogueiros que eu conheço. Vou citar diretamente:

Assim, não é meu propósito ensinar aqui o método que cada indivíduo deveria seguir para bem conduzir a sua razão, mas apenas mostrar de que maneira procurei guiar a minha. Os que se propõem a oferecer preceitos devem julgar-se mais capazes dos que os recebem; e, se falham na mínima coisa, tornam-se por isso censuráveis. Mas, propondo-se este escrito a ser apenas uma história ou, se preferirdes, uma fábula, na qual, entre alguns exemplos que possam ser imitados, talvez se encontrem outros que será acertado não seguir, espero que seja ele útil a alguém, sem ser nocivo a ninguém, e que todos me serão gratos pela minha franqueza.”

Como “disclaimer”, não é dos mais elegantes. Mas como proposta de valor, coloca o autor em uma posição modesta, expondo a sua opinião sob um ponto de vista pessoal, na expectativa de que o leitor possa usar esta informação para tirar suas próprias conclusões.

Por todo lado encontramos autores que estão sempre dispostos a pregar, determinar, julgar e corrigir o comportamento alheio, sem estar dispostos a ser censurados da mesma forma. Não estou em condições de avaliar se Descartes praticava o que afirmou, mas seu posicionamento exposto no trecho acima é sem dúvida digno de análise.

Além disso, o desejo de que o texto seja “útil a alguém, sem ser nocivo a ninguém” poderia sem dúvida fazer parte da inspiração de um código de ética do escritor.

Extraído de:
http://www.efetividade.net/

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